"Aqui se 'vive' e se 'respira' poesia... Faça parte deste espaço, siga-nos...

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sábado, 11 de junho de 2011

Espaço Crônica 2 - [Carlos Henrique Cypriano... Celso Gabriel de Toledo e Silva... Evelyne Furtado... Paulo Pereira da Costa...]



Espaço Crônicas


Lobos e Cães
Carlos Henrique Cypriano - Piracicaba-SP


Conta-se uma fábula, provavelmente de La Fontaine, em que um lobo esfomeado, ao fim do forte inverno europeu, vagava pelas estradas, sem encontrar nada para colocar no estômago, quando se deparou com um portentoso cão de raça, forte, gordo, pêlo brilhante, passeando altivamente.

Resolve puxar conversa com o primo, e lhe pergunta como faz para estar tão bem. O cão responde morar junto de seres humanos, que lhe dão casa, comida, atenção, bastando em troca que ele vigie a propriedade. Convida então o lobo a seguir-lhe, garantindo que não faltará lugar para ele também, e que os humanos irão gostar de ter mais um guardião.

Põem-se a caminho; porém, o lobo pára e pergunta que marca é aquela no pescoço do Cão – Tratava-se da marca da coleira. Ao ouvir do cão que o mesmo levava uma vida de prisioneiro, o lobo então agradece o convite e desiste de acompanhar o colega, dando meia volta em direção à floresta.

É preciso estar atento e forte! Ás vezes o conforto custa caro. Avaliemos até que ponto vale à pena abrir mão da liberdade, considerando que ela também encerra nossa dignidade e autenticidade. Utilizando um conceito budista: nem tanto céu, nem tanto terra. É impossível exercer a liberdade total. Enfim, sensatamente consigamos prover as necessidades e desejos tanto de nossa porção lobo como daquela de “cãozinho submisso”. Mesmo porque, a partir de certo momento na vida de um ser humano, quando se forjou um espírito forte e magnânimo, é impossível submeter-se às humilhações dos grilhões.

O lobo não titubeou. Preferiu passar fome.

Envelhecer
Celso Gabriel de Toledo e Silva - CeGaToSi®
Poeta de Luz® - Arquiteto de Almas®
Piracicaba - SP

Ontem esta pergunta a mim foi feita: [Você não tem medo de envelhecer], confesso que parei por alguns instantes na busca da resposta que esta pessoa precisava ouvir de meus lábios, mas apenas passei idéias e pensamentos do que eu acreditava ser envelhecer e de como conviver com este sentimento.

Sendo assim fiquei a pensar: como responder a uma imensa incógnita como esta. Acredito que nem o mais sábio filósofo seria capaz de ter a resposta correta a esta transformação que a grande maioria das pessoas irão chegar no decorrer da sua existência, sendo que nem todos estão predestinados ao ciclo de vida completo [nascer, crescer, envelhecer, morrer - naturalmente], quantos ainda não falecem por doença mesmo com todos os avanços da medicina, quantos não falecem jovens em virtude da violência que envolve mais aos jovens, quantas crianças não falecem, sem contar quantos bebes e fetos que nem chegam a este mundo com vida, entre outras tantas situações como um acidente de carro, um tiro acidental.

O que conta realmente é você ter a oportunidade da vida, seja ela breve ou longa, é estar presente neste tempo de existência onde se busca pelo crescer, pelo aprender, e mesmo que por uma minoria, compartilhar o se sabe em prol do que não se sabe, estar ciente que num dia qualquer por capricho do destino, pelo final do seu tempo como habitante neste Planeta irá partir tal como chegou. [cada qual com o seu modo de interpretar e religião]

Somos seres únicos envoltos em completo mistério, nascemos sozinhos [quando a hora do parto chega desejamos sair da proteção ofertada, mesmo que seja antes do tempo ou um pouco depois do tempo, com ajuda ou sem ajuda], crescemos [vivemos, envelhecemos e morremos sozinhos], não esquecendo que se convive com muitas pessoas, ao nascer - pai e mãe, muitos também com seus avós, tios, sobrinhos, muitos com família numerosa, outros com família pequena, outros tantos por vezes nem família, mas que constituirão uma família futuramente ou farão de um ciclo de amizade.

Não deixando de ressaltar que cada pessoa carrega como bagagem suas alegrias, suas dores, vitórias e perdas, conquistas e derrotas, algumas com mais facilidades de assimilação, outros com algumas dificuldades, outros que nunca aprenderão, mas isto é o que conta, a diversidade de relacionamentos, de acontecimentos, de situações, o errar e aprender, o viver.

Portanto deixo como uma visão de vida, que não se deva deixar dominar pelos medos, aprenda a enfrenta-los, principalmente com o [envelhecer], é uma passagem que ninguém tem a formula perfeita, não pense muito além, viva o dia como único, seja feliz e compartilhe felicidade, assim você encontrará para si o mais importante, a sua formula pessoal de vitória e de serenidade para compreender a vida e como envelhecer da melhor forma, principalmente com saúde e dignidade.

Minha dose de ilusão
Evelyne Furtado - Natal-RN

Há quem diga que precisamos nos despir de todas as ilusões para amadurecermos. Para alguns cépticos nenhuma crença é consistente, a não ser a que eles professam aos quatro cantos. Só crêem naquilo que podem enxergar.


Diante dessas pessoas tenho, às vezes, a nítida sensação de que sou extremamente pueril. Em algumas ocasiões vou me encolhendo dolorosamente na medida em que seus argumentos crescem.


Concordo que o processo de desencantamento é necessário ao amadurecimento e admito que até bem pouco tempo eu me esquivava da desilusão a todo custo. Não deu para continuar e enfrentei o que pude sem a visão cor de rosa que eu emprestava ao mundo.


Também ultrapassei a fase de negar sem sequer ouvir a outra parte. Hoje ouço, pondero, considero e me ponho de joelhos, até, perante as novas pretensas verdades.


Mas não me movimento bem nessa posição. Passado algum tempo ponho-me de pé outra vez e o que me ergue são as minhas crenças restauradas. Novinhas e bem aventuradas ilusões.


Se há inocência nas minhas fantasias, creio que também há um pouco de ingenuidade no pretensioso realismo. Em alguma coisas os cépticos convictos devem se sustentar, pois cá para nós, eu não conseguiria ir do começo ao fim da vida totalmente descrente. Se alguém consegue essa proeza que vá mim. Eu preciso de minha dose de ilusão.


O medo de ser feliz
Paulo Pereira da Costa - Piracicaba-SP

Há quem pensa que liberdade é descompromisso, não estar preso a nada. Grande equívoco. Ser livre é se doar, é participar, é ajudar, é ceder um pouco de si mesmo em prol do coletivo, é não ficar deitado aguardando para tirar proveito do esforço alheio. Liberdade é um bem que precisa ser conquistado, e dá trabalho. Depois é preciso manter. E dá mais trabalho ainda. A renúncia à liberdade, em muitos casos, é a fuga da responsabilidade. Conquanto seja sinônimo de vontade, coragem, ação, a liberdade não imuniza contra revezes, frustrações. Tem seu custo, como tudo na vida. Entretanto, quem é realmente livre banca esse custo, não se esconde, não tira o corpo fora, não se importa de ouvir o que não quer, não dá bola para cara feia. Quem é livre enfrenta, fala a verdade, não teme se expor, leva tombos, toma pancadas, recebe ofensas, sai alquebrado, machucado, injuriado, etc. das batalhas, mas... continua livre. A liberdade está na alma. E incomoda muita gente. O mundo é de todos, mas tem quem se acha mais dono, e isso é causa de muita injustiça. Para lidar com essa gente é preciso ser livre, não ter medo de bordoada. “O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética: é o silêncio dos bons” (Martin L. King). Quem é livre não se omite perante as injustiças, mas tem muito bem definida na mente a diferença entre o justo e o injusto, sabe que radicalismo, fanatismo, extremismo e afins nada têm a ver com liberdade e justiça.

O ser humano é livre para realizar, amar, ser feliz. Muita gente, todavia, não se solta, não ama, não é feliz. Por quê? Medo. O maior obstáculo entre a pessoa e o seu objetivo é o medo do oposto do que ela deseja. A grande barreira à felicidade é o medo de ser infeliz. Joga-se fora a possibilidade de ser feliz quando, com medo de ser infeliz, se deixa de fazer o que é preciso para alcançar a felicidade. Teme-se procurar o ‘sim’ e encontrar o ‘não’, atirar-se para a vida e cair no lugar errado. Em muitos casos, o oposto mora ao lado. Mas viver é correr riscos. Quem não arrisca... Para vencer o medo é preciso mudar, transformar o medo de errar em uma vontade ferrenha de acertar. O querer acertar tem de ser imensamente maior do que o temer errar; a vontade de amar, muito maior do que o medo de sofrer.
“O medo de amar é o medo de ser livre para o que der e vier
Livre para sempre estar onde o justo estiver
O medo de amar é o medo de ser
De a todo momento escolher, com acerto e precisão, a melhor direção
O medo de amar é não arriscar
Esperando que façam por nós o que é nosso dever...”
[Beto Guedes e Fernando Brant].

Matéria da Veja de 20/4/11 revela que os homens estão adiando cada vez mais o casamento, deixando para começar a pensar nele depois dos quarenta. Querem, dizem, esticar ao máximo a solteirice, ser livres para cuidar de si e do trabalho. Descartam, porém, a ideia de envelhecer sozinhos. Ou seja, casamento e filhos ficam para depois como se fossem sinônimo de perda de liberdade. Dá mesmo a impressão de que é preciso primeiro viver a vida para depois se preocupar com isso, como se quem é marido e pai não tivesse liberdade, não tivesse vida. Vejo um equívoco nesse modo de pensar. Casamento e filhos, além de propiciar maior realização pessoal, não impedem o progresso profissional; digo isso por mim e por um monte de gente. Uma coisa não anula a outra. Casar e ter filhos é preencher, é muito mais do que uma tábua de salvação para o fim da vida, mais do que algo a que se apega para não envelhecer sozinho. Há maior densidade na vida do homem que compartilha seu tempo e espaço com mulher e filhos. E responsabilidade também. “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” [Saint Exupery]. Bom marido precisa conquistar dia a dia a mulher; bom pai é ser espelho para os filhos. Ter filhos mais cedo é ganhar mais tempo para conviver com eles e dar-lhes mais tempo para terem pai. Antes de um pai endinheirado, o filho quer um pai. A menor diferença de idade entre pais e filhos constitui uma vantagem para ambos. Muitos desses homens que vão ser pais perto dos cinquenta certamente se arrependerão; ao constatarem o que realmente vale a pena na vida, vão pegar-se desejando ter vinte ou trinta anos a menos para curtir como gostariam seus rebentos. Quanto mais se abraça a vida, ao invés de fugir dela, mais se é livre. Sonhar junto é viver o sonho. Raul Seixas, em “Prelúdio”, canta:
 “Um sonho que se sonha só
 é só um sonho que se sonha só
 mas sonho que se sonha junto é realidade”.

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